Página eletrônica da revista Fórum traz matéria sobre o embate judicial entre a Rede Globo e a TV Gazeta, uma das empresas de Collor, que se arrasta desde o fim do ano passado.
O episódio mais recente foi o dos recursos interpostos pela emissora carioca para romper a sociedade, mantida à força pela Justiça de Alagoas – e noticiado pelo portal UOL no final desta última semana.
A reportagem do colunista Carlos Madeiro foi reproduzida por este espaço.
Mais um movimento está previsto para esta terça-feira (10), com julgamento de novo recurso – este interposto por credores trabalhistas e que, ao contrário do que tem sido colocado por vários segmentos, mesmo que consiga um improvável ganho de causa (aliás, muito improvável, como têm mostrado tantos casos envolvendo as empresas de Collor julgados recentemente) não levará a empresa à falência.
É possível que, antes, muito pelo contrário.
Até o julgamento, voltaremos ao tema.
Mas, retomando o objetivo do comentário, a reportagem da Revista Fórum (mencionando cobertura da Folha de S. Paulo deste domingo, 8, sobre o caso), na condição de quem tem acompanhado a “Via Crúcis” de ex-empregados de alguma das empresas de Collor e que ainda lutam para receber aquilo a que têm direito, chamou a atenção o último parágrafo, ao mencionar que um dos aspectos citados no recurso da Globo é a preocupação de que os atuais detentores da retransmissão do sinal mais cobiçado do país são políticos e que isso poderia interferir na cobertura.
Em outro recurso, a emissora carioca não escondeu que a proximidade com Collor lhe causa “gravíssimo dano reputacional”.
Em bom português, quem – do negócio da comunicação, cuja matéria-prima é a credibilidade – vai querer ter seu nome associado a alguém que tem uma condenação pela mais alta corte do país, por corrupção e lavagem de dinheiro?
Isso fora outras tantas (e não são poucas! Para não cansar – mais – o leitor) menções depreciativas.
E ligação essa, ainda mais como sócio, de “papel passado” e tudo.
Pois bem, diz o trecho da reportagem da Fórum: “isso não pareceu um problema nos 44 anos de parceria entre a família Collor e a família Marinho”.
As relações já foram muito mais amistosas, é verdade.
No livro “Notícias do Planalto” (sobre a ascensão de Collor à Presidência e a relação entre poder e comunicação no país), o jornalista Mário Sérgio Conti cita que, nas primeiras décadas de operação, a emissora familiar alagoana possuía equipamento que a própria Globo Nordeste não tinha.
E não se furtou a dar suporte à representação regional da poderosa emissora.
É onde começamos os adendos para “recolocar” o contexto da citação da revista: naquela época, a emissora local era dirigida pelo irmão de Collor, Pedro.
É também da eleição de Collor que a Globo passou a conviver com o “fantasma” de ter instrumentalizado a comunicação em favor de interesses políticos, com a até hoje discutida e discutível edição supostamente tendenciosa (para não dizer manipulada) do debate entre ele e um então metalúrgico “barbudo” e com outros atributos “negativos” para a elite e o senso comum brasileiro de então: não ter a postura de alguém com cara de rico, de “berço de ouro”; mas, ser “do povo”, retirante nordestino etc.
A história de um de outro mostram o quanto essas coisas podem levar a julgamentos errôneos – ô! E como! Hein? – e o quanto é importante estudar História (com “h” maiúsculo).
O “Mea culpa” feito um desses anos aí, lido em cadeia nacional, em que a Globo admitiu não ter combatido a ditadura militar foi o ponto – digamos – culminante dessa revisão.
Afinal, não era só uma questão de consciência: ela vira que seu negócio se baseia em informação e, como dissemos acima, quem lida com informação tem que ter credibilidade.
É uma questão de negócios, de saber qual é o seu “produto”.
Mas, apesar de ter cedido espaço aos tumultos em São Paulo, em 2013; patinado no que hoje sabemos ter sido um golpe contra a então presidente; enfrentado a hostilidade popular de um lado e de outro na prisão de Lula e nas crises do governo Bolsonaro, a Globo tem, sim, tentado manter a credibilidade.
Primeiro, não se trata de uma defesa – um conglomerado como esse não precisa de defesa por este modesto espaço; segundo, não temos “procuração para fazê-lo” e, terceiro, muito menos há intenção para tal.
Então, é o quê?
Análise, tentativa de esclarecimento.
São notórias as presenças de jornalistas da própria Globo na mediação dos debates em eleições para governador e principais prefeituras brasileiras, desde, pelo menos, a década de 1990.
No final desta e início da seguinte, a emissora local passou por duas intervenções, tendo o diretor do departamento de Jornalismo indicado pela direção, no Rio.
Afinal, se os outros setores, são de responsabilidade do gestor local, este é que opera o “produto globo” em âmbito local.
E vale também a menção: para bom observador, era notória a diferença de cobertura do noticiário num espaço e nas demais mídias, sob gestão editorial dos donos locais.
Mais recentemente, a imprensa citou a contrariedade da emissora carioca na cobertura do caso dos bairros afetados pela mineração: como a Braskem é anunciante da emissora local, o peso dado às notícias não seria o mesmo pretendido pela Rede, para um caso de tal envergadura.
Ainda assim, soa descontextualizado alegar essa preocupação agora, mas, como alegou a página eletrônica da revista, contraditório, definitivamente não é.
Além do que foi feita num recurso para tribunais superiores, que deverão ter uma visão diferente da que tem tido o Judiciário alagoano, nas questões – em particular no que tange aos direitos de ex-empregados de Collor – que lhe chegam para julgamento.
